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Degustando Sonoridades: Preciosas, bonitas e guerreiras. Conheça as Pearls Negras



Pearls Negras é um trio de rap do morro do Vidigal (Rio de Janeiro) formado por Alice Coelho, de 17 anos, Mariana Feitosa e Jennifer Loiola, ambas de 16. Há cinco anos as garotas entraram no projeto "Nós do Morro" que desde 1986 oferece a jovens cursos de arte, teatro, cinema e música. Sobre a tutela de Jeckie Brown, rapper e produtora das garotas, as meninas tiveram aulas de rimas, começando a carreira artística e hoje, explodindo no mundo.


Descobertas pelo produtor inglês David Alexander numa apresentação de sarau no morro do Alemão, as garotas tiveram a oportunidade de lançar sua primeira Mixtape assinada pelo selo inglês Bolabo Records. Todas as músicas produzidas por David e as rimas de autoria própria das garotas falam sobre os ácidos deboches para as más línguas, a vida e dificuldades enfrentadas no morro, relacionamentos e até fazem algumas críticas sociais.





Na Mixtape intitulada Biggie Apple, as Pearls Negras jogam suas rimas em cima de músicas que andam pelo cenário eletrônico, pelo trap, o r&b, com algumas pitadas de funk carioca e regado a boas doses de pop. A faixa-título "Biggie Apple" abre o catálogo de músicas, que compreende 7 faixas, exaltando o poder do trio e mostrando o "rap de saia", seguida por "O Futuro" complementando ainda mais a exaltação, as garotas querem comprovar o talento feminino nas rimas e acabar com as criticas sexistas. "Make It Last" é faixa mais pop e dançante do registro, arriscando no inglês e trazendo um som com referências da disco music, o trio enaltece o amor pelo morro do Vidigal.

"Pensando em Você" (uma das faixas mais bem produzidas da Mixtape) foi escolhida para divulgar o trio. Com um clip gravado no morro do Vidigal e contendo a participação de alguns moradores, as garotas ficaram rapidamente famosas na internet e sendo comparadas até as Destiny's Child. Pearls Negras também foram muito bem elogiadas por diversos sites americanos e europeus que demonstraram empolgação com o trabalho das meninas.





O trio já colheu bons frutos. Desdo lançamento de sua Mixtape no começo do ano, já foram mais de 400 mil visualizações no youtube, as garotas já fizeram show em São Paulo e esse mês saem em um tour pela Europa. Também foram convidadas para participar do álbum-visual da Pepsi para a copa do mundo e estrelaram no novo comercial da C&A para o dia dos namorados.





Com influências que vão desde Karol Conka e Flora Matos, Pearls Negras mostram personalidade, talento, energia e muita garra. Vieram para mostrar a voz do morro e derrubar as barreiras machistas ainda presentes no rap. É um simbolo da arte das favelas e das classes menos favorecidas, dois cenários sociais que sofrem pelo preconceito elitista disseminado no nosso país. Por mais que o funk carioca, o tecnobrega do Pará e outros gêneros de camadas mais baixas sejam taxados  de anomalias musicais por muitos brasileiros, lá fora, como na Europa e Estados Unidos, esses gêneros são referências para diversos artistas que procuram explorá-los e expressá-los em seus trabalhos e, que por sinal, são muito bem elogiados e recebidos pela crítica especializada.







Degustando Sonoridades: Do pop açucarado ao apimentado Hip-Hop

Há muito se ouve por ai dizer que nossa música não é mais a mesma, nossos artistas não possuem a mesma qualidade e nossas músicas estão se tornando cada vez mais triviais. Opinião é algo que devemos respeitar, todavia, observamos essas mesmas pessoas (que tanto julgam) se acomodarem a acreditar que a música atual se limita apenas aos sons tocados pelas rádios ou se prenderem em trabalhos das décadas passadas. Pois bem, o Música na Mesa em seu primeiro post da coluna "Degustando Sonoridades" irá falar sobre duas novas artistas brasileiras do cenário independente e seus respectivos álbuns para comprovar a qualidade ainda existente na nossa música.
  

A primeira de todas é a queridíssima Nana. Cantora e compositora nascida na Bahia, cursou jornalismo e fez intercâmbio na Rússia. Foi lá que junto com alguns amigos gravou quatro canções deixando, assim, a música falar mais alto. O seu primeiro álbum de estúdio foi lançado ano passado e é intitulado: “Pequenas Margaridas”. Todas as letras são de autoria própria e as bases instrumentais das músicas foram gravadas por ela mesma em seu quarto. 

O álbum é recheado de composições sobre relacionamentos, decepções e declarações amorosas e saudade. Tudo que uma pessoa romântica ia amar, mas ao longo do disco é perceptível que a cantora esconde toda a dor causada por esses sentimentos por trás de um som doce acinzentado, acompanhado por seus vocais meigo e calmo. Nana transmite tudo isso através de sonoridades já conhecidas como a bossa nova, MPB, o samba e até as batidas do funk, misturando todo esse tempero em um pop prazeroso e original que mais parece açúcar em forma de canção. O disco mostra também outras influências, em o "Céu de Estocolmo", a baiana anda pelas guitarras e sonoridades da Jovem Guarda, dando uma roupagem mais pop e moderna. Já na faixa "O Calor", Nana mostra seu lado sombrio com melodias mais densas e uma composição mais "psicótica".


O disco possui 13 faixas sendo duas delas em inglês, Let’s Dance Again e o gostoso sambinha, onde a baiana declara que não quer se apaixonar mesmo a pessoa sendo irresistível, I Can’t Fall in Love. Destaque para as faixas Montanha Russa, onde Nana se utiliza das batidas suavizadas do funk e o grudento pop/bossa-nova de expressionismo alemão.

  
  

  

  
Se você curte algo mais divertido e descontraído, englobados em um som animado e dançante, então “Batuk Freak” da rapper Karol Conká é o álbum ideal para você. Karol é curtibana e vem vivendo do rap desde 2002, mas foi ano passado que seu primeiro álbum saiu. “Batuk Freak” é uma verdadeira festa onde a rapper, além de se utilizar do hip-hop/rap, também mistura gêneros como axé, funk, afrobeat e principalmente o eletrônico. A curitibana utiliza em suas músicas bases pré-gravadas, os famosos samplers, dando vida a canções que abordam temas do cotidiano como festas, superação de fim de relacionamento e a rotina de casais amorosos e do povo das favelas. Com rimas muito bem colocadas e versos comprovando o poder já existente da mulher no rap, Karol não se limita só ao mundo do hip-hop, mas vai em busca de novos sons, dando vida a faixas que nos remetem às influências do samba, MPB e até arrisca em refrãos pegajosos característicos do pop. 



  
Em “Boa Noite”, a décima primeira faixa do álbum, a curitibana joga a sua rima descontraída em cima de uma base pré-gravada de música afro-brasileira que ao longo da faixa se misturam, tornando-se uma dançante e divertida canção com originalidade e criatividade, mostrando que samplers não são  sinônimo de plágio ou de artistas sem ideias próprias.  Destaque para as faixas “Gueto ao Luxo” com batidas do axé e bases eletrônicas, a já falada “Boa Noite”, o rap de superação de um fim de relacionamento “Você Não Vai”, a grudenta e dançante “Gandaia” e o cover do samba de raiz de Almir Guineto misturando ao eletro-funk “Caxambu”.



Essas duas mulheres não tem destaque nas grandes mídias e nem possuem selos de grandes gravadoras, mas não se deixam levar pelos sons repetitivos e pré-fabricados impostos por boa parte da indústria musical. Talvez elas não lhe agradem pelo gênero no qual trabalham, mas são a prova da  existência de artistas brasileiros de personalidade e qualidade e batalham todos os dias para mostrar isso. A música brasileira ainda é rica e existem incontáveis artistas atuais que provam isso, embora muito de nós estejam inertes aos trabalhos de artistas americanos ou ainda não acordamos da década de 80 e saímos por ai equivocadamente a declarar que a música do nosso país não é mais a mesma.