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Redescobrindo Temperos: The Strokes - Is This It


Sabe aquele receita antiga da vovó que você tanto gosta e tá afim de relembrar? Na coluna Redescobrindo Sonoridades, iremos te dar uma ajudinha falando sobre aquele álbum que marcou gerações, lançado à alguns anos atrás e que bombou nas paradas de sucesso. Iremos sempre relembrar antigas receitas que vale a pena serem novamente saboreadas.

No primeiro post da coluna, iremos falar sobre o álbum-debut do The Strokes, em comemoração à volta da banda aos palcos nesse último sábado(30/05/2014) depois de 2 anos desde o fim da tour "Angels", encerrada aqui no Brasil em 2011, no festival Planeta Terra. 



"Is This It" é o primeiro álbum de estúdio dos norte-americanos The Strokes. O disco foi lançado no início de setembro de 2001, após o grande sucesso do seu EP "The Modern Age" na Inglaterra. A banda já era considerada nas terras inglesas como "A salvação do rock", sendo muito comentada por diversas revistas especializadas em música e ainda fazendo diversos shows por lá. Mas só como seu debut nos Estados Unidos, é que o quinteto conseguiu dominar o mundo e se tornar o grande precursor do indie-rock 

A banda formada por Julian Casablancas(vocal), Albert Hammond Jr(guitarra), Nick Valensi(guitarra), Nikolai Fraiture(baixo) e o brasileiro Fabrizio Moretti(bateria), assinou seu contrato com a gravadora RCA e teve como produtor inicial de seu disco de debut Gil Norton, conhecido por ter trabalhado com os Foo Fighters e Pixies. Todavia, os garotos não curtiram o trabalho final do produtor, alegando estar "limpo" demais. Com isso, Gordon Raphae assumiu o cargo de produtor do disco e conseguiu chegar no resultado que a banda tanto queria. O disco foi produzido em um estúdio de porão chamado Transporterraum, localizado em Manhattan.



Contendo 11 faixas, o disco foi lançado primeiramente em países como Inglaterra, Japão e outros. Nos Estados Unidos, a previsão de lançamento era no dia 11 de setembro, mas por conta dos atentados às Torres Gêmeas a data foi adiada. Além disso, a faixa "New York City Cops", que contém uma letra ofensiva aos polícias, foi retirada do álbum devido as atitudes heróicas dos mesmos após aos atentados e substituída por "When It Started".

Capa do disco "Is This It" nos EUA
A capa do "Is This It" é de autoria do fotógrafo Colin Lane e mostra uma nádega feminina vista de lado e sobre ela uma mão com luvas. Segundo o fotógrafo, a foto foi tirada espontaneamente enquanto sua namorada saia do banho. Nos Estados Unidos, a capa foi censurada por ter conteúdo sexual explícito e foi trocada para que o disco continuasse sendo comercializado por lá.

Buscando referências em bandas undergrounds como Velvet Underground e o garege rock dos anos 80, "Is This It" contém riffs marcantes, guitarras sujas, uma sonoridade lo-fi, influências do punk e da New Wave e composições sobre relacionamentos que agradaram tanto a crítica quanto o mercado fonográfico. O disco possui nota 91/100 no site metacritc(responsável por reunir diversas críticas de discos, jogos, filmes e seriado e retirar uma nota média) e fechou o ano de 2001 sendo considerado o melhor álbum do ano. Nas paradas musicais inglesas debutou em #3, nos EUA em #33, vendendo em média 20 mil cópias por semana, e foi disco de platina em diversos países. A banda ainda ganhou o NME Awards de melhor álbum, banda do ano e Melhor Banda de Estreia(categoria que também venceu no Brit Awards).

O primeiro single do álbum foi a faixa "Last Nite". De início, os garotos não estavam animados para gravar um videoclip de divulgação para o single. Entretanto, acabaram cedendo e o clip, dirigido por Roman Coppola, é uma performance ao vivo da banda e contém uma cena cômica onde o microfone cai na cabeça do baterista Fabrizio após ser empurrado pelo guitarrista Albert. O baterista tenta colocar o microfone no lugar com a baqueta, o que não dá certo, e outros microfones acabam caindo no chão. O single debutou em #14 nos charts ingleses e foi considerado a quinta melhor música de todos os tempos segundo a revista NME.

O The Strokes nunca ligou para os rótulos recebidos e os próprios integrantes afirmam que a mídia exagerou nos elogios na época do debut da banda, mas o lançamento de "Is This It" foi um grande marco na música do início dos anos 2000. Trazendo para cena mainstream um som mais alternativo após a decadência do grunge, um rock energético com criatividade e se tornando os grandes influenciadores de diversas bandas como Arctic Monkeys, The Killers, The Kooks, Fraz Ferdinand e muitas outras que levam o termo indie. "Is This It" é considerado o melhor álbum da década passada e o terceiro melhor álbum de todos os tempos, segundo a Rolling Stones. Salvação do rock ou não, o primeiro álbum dos garotos, com certeza deve ser considerado um grande clássico moderno e, talvez, da história da música.





Ouça: DeezerYoutube

Resenha : SILVA - Vista Pro Mar







Sol, praia, sombra e água fresca são uma das características para representar o segundo disco de SILVA, Vista Pro Mar. Deixando de lado o som mais acanhado presente em seu primeiro registro (Claridão - 2012), o capixaba apresenta um trabalho mais alegre, ensolarado, embora com pitadas de melancolia aqui e acolá.

O álbum é recheado por baterias robóticas, sintetizadores prazerosos, sons praianos e de metais em arranjos perfeitamente harmônicos com os vocais suaves e confortáveis do cantor. A faixa-título, "Vista Pro Mar", abre o registro com um som mais alto astral apresentando a alegria já mencionada pelo SILVA que estaria presente no disco. Os versos "Eu sou de remar /Sou de insistir / Mesmo que sozinho" apontam a vontade do interprete em crescer e a busca por novos sons que serão entregues ao longo da audição das próximas faixas. Em contraste com a alegria da faixa anterior, SILVA mergulha em "É Preciso Dizer" numa melancolia nostálgica onde o arranjo sintético se entrelaça ao som da maré e das gaivotas, proporcionando ao ouvinte viajar até uma praia ensolarada tingida em preto e branco. 



Completando a mensagem da primeira faixa, o cantor traz a canção mais ensolarada e pop do disco, "Janeiro". Nela, SILVA quer esquecer dos sofrimentos de um amor de outra hora (amor não correspondido? termino de um relacionamento?) e convida o ouvinte a se entregar a alegria, deixar as amarguras passadas de lado e a amar novamente.

O capixaba apresenta faixas que intensificam ainda mais a proposta oceânica do disco com a leveza praiana de "Entardecer", recheada por uma guitarra reggae suave, e na solitária "Okinawa", onde a parceria com Fernanda Takai dá uma pitada adocicada e comportada para a faixa.




O catálogo ainda é incorporada por belas canções pop como "Disco Novo", a melosa, mas dançante "Universo", referências dos anos 80 com a disco e bossa-nova "Cupaba" e anda pelo afrobeat em "Volta". Na nona faixa, "Ainda", o capixaba deixa de lado o som sintético, apresentando uma bela melodia e letra, acompanhado por um violão e sons de passarinhos no fundo, entregando uma sonoridade acústica característico de muitos interpretes dessa nova safra da MPB. O álbum se despede com "Maré", música onde SILVA intensifica ainda mais a vontade de ir além, da busca pela realização de seus anseios e sonhos e, retornando toda a alegria (embora mais comportada) do início do álbum.  










Por mais que a sonoridade das faixas pareça um pouco entre si, SILVA consegue adicionar a cada uma delas elementos diversificados (sejam nos arranjos, nas influências ou nas letras) que atraem o ouvinte até o fim tornando quase impossível a escolha de uma faixa favorita.

Vista Pro Mar é um registro autêntico onde a mensagem deixada é de crescer, ir além, trilhar novos rumos e não se entregar a dor e o sofrimento de um amor passado (por mais que haja lembranças). O disco também é a prova de um pop brasileiro bem feito, de qualidade e sem se entregar as fórmulas prontas ou massivas referências das sonoridades estrangeiras. O álbum é belo, alegre, dançante e melancólico. É daqueles discos para ouvir no fim da tarde, na praia sentindo a brisa do vento e, com certeza, para sempre termos em nossa playlist.





Gravadora: Slap
Faixas: 11
Nota: 9.0
Ouça : DeezerYoutube



Degustando Sonoridades: Do pop açucarado ao apimentado Hip-Hop

Há muito se ouve por ai dizer que nossa música não é mais a mesma, nossos artistas não possuem a mesma qualidade e nossas músicas estão se tornando cada vez mais triviais. Opinião é algo que devemos respeitar, todavia, observamos essas mesmas pessoas (que tanto julgam) se acomodarem a acreditar que a música atual se limita apenas aos sons tocados pelas rádios ou se prenderem em trabalhos das décadas passadas. Pois bem, o Música na Mesa em seu primeiro post da coluna "Degustando Sonoridades" irá falar sobre duas novas artistas brasileiras do cenário independente e seus respectivos álbuns para comprovar a qualidade ainda existente na nossa música.
  

A primeira de todas é a queridíssima Nana. Cantora e compositora nascida na Bahia, cursou jornalismo e fez intercâmbio na Rússia. Foi lá que junto com alguns amigos gravou quatro canções deixando, assim, a música falar mais alto. O seu primeiro álbum de estúdio foi lançado ano passado e é intitulado: “Pequenas Margaridas”. Todas as letras são de autoria própria e as bases instrumentais das músicas foram gravadas por ela mesma em seu quarto. 

O álbum é recheado de composições sobre relacionamentos, decepções e declarações amorosas e saudade. Tudo que uma pessoa romântica ia amar, mas ao longo do disco é perceptível que a cantora esconde toda a dor causada por esses sentimentos por trás de um som doce acinzentado, acompanhado por seus vocais meigo e calmo. Nana transmite tudo isso através de sonoridades já conhecidas como a bossa nova, MPB, o samba e até as batidas do funk, misturando todo esse tempero em um pop prazeroso e original que mais parece açúcar em forma de canção. O disco mostra também outras influências, em o "Céu de Estocolmo", a baiana anda pelas guitarras e sonoridades da Jovem Guarda, dando uma roupagem mais pop e moderna. Já na faixa "O Calor", Nana mostra seu lado sombrio com melodias mais densas e uma composição mais "psicótica".


O disco possui 13 faixas sendo duas delas em inglês, Let’s Dance Again e o gostoso sambinha, onde a baiana declara que não quer se apaixonar mesmo a pessoa sendo irresistível, I Can’t Fall in Love. Destaque para as faixas Montanha Russa, onde Nana se utiliza das batidas suavizadas do funk e o grudento pop/bossa-nova de expressionismo alemão.

  
  

  

  
Se você curte algo mais divertido e descontraído, englobados em um som animado e dançante, então “Batuk Freak” da rapper Karol Conká é o álbum ideal para você. Karol é curtibana e vem vivendo do rap desde 2002, mas foi ano passado que seu primeiro álbum saiu. “Batuk Freak” é uma verdadeira festa onde a rapper, além de se utilizar do hip-hop/rap, também mistura gêneros como axé, funk, afrobeat e principalmente o eletrônico. A curitibana utiliza em suas músicas bases pré-gravadas, os famosos samplers, dando vida a canções que abordam temas do cotidiano como festas, superação de fim de relacionamento e a rotina de casais amorosos e do povo das favelas. Com rimas muito bem colocadas e versos comprovando o poder já existente da mulher no rap, Karol não se limita só ao mundo do hip-hop, mas vai em busca de novos sons, dando vida a faixas que nos remetem às influências do samba, MPB e até arrisca em refrãos pegajosos característicos do pop. 



  
Em “Boa Noite”, a décima primeira faixa do álbum, a curitibana joga a sua rima descontraída em cima de uma base pré-gravada de música afro-brasileira que ao longo da faixa se misturam, tornando-se uma dançante e divertida canção com originalidade e criatividade, mostrando que samplers não são  sinônimo de plágio ou de artistas sem ideias próprias.  Destaque para as faixas “Gueto ao Luxo” com batidas do axé e bases eletrônicas, a já falada “Boa Noite”, o rap de superação de um fim de relacionamento “Você Não Vai”, a grudenta e dançante “Gandaia” e o cover do samba de raiz de Almir Guineto misturando ao eletro-funk “Caxambu”.



Essas duas mulheres não tem destaque nas grandes mídias e nem possuem selos de grandes gravadoras, mas não se deixam levar pelos sons repetitivos e pré-fabricados impostos por boa parte da indústria musical. Talvez elas não lhe agradem pelo gênero no qual trabalham, mas são a prova da  existência de artistas brasileiros de personalidade e qualidade e batalham todos os dias para mostrar isso. A música brasileira ainda é rica e existem incontáveis artistas atuais que provam isso, embora muito de nós estejam inertes aos trabalhos de artistas americanos ou ainda não acordamos da década de 80 e saímos por ai equivocadamente a declarar que a música do nosso país não é mais a mesma.