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Degustando Sonoridades: Deine - HA:TFELT


Yenny, ou também Yeeun, é uma cantora sul-coreana que integrou por longos 10 anos o famoso girlgroup de música pop coreana Wonder Girls. Durante a carreira no grupo, Yeeun foi cercada por hits, aclamação do público e, infelizmente, imposições de sua agência, transformando-a em uma pequena peça da engrenagem do grande mercado do K-pop. Porém, nos últimos anos de atividades das Wonder Girls, a cantora e suas companheiras puderam ter mais liberdade artística. O último álbum, Reboot (2015), com exceção do first single, foi todo produzido por ela e as outras integrantes, assim como o digital single Why So Lonely (2016), composto por três faixas de total autoria das garotas.

Em 2017, veio o anúncio do fim do grupo e cada integrante separou-se para dar início aos seus trabalhos solos. No caso de Yenny, ela já havia lançado em 2014 o EP Me?, pelo seu pseudônimo HA:TFELT, no qual explorou a sua autonomia como musicista e deixou evidente que ela não se resumia apenas a uma integrante de uma girlband.

Além de cantora, a sul-coreana é compositora e instrumentista e, desde o primeiro registro em carreira solo, mostrou-se estar no controle da liderança no processo de criação e produção de seus trabalhos. Isso ficou mais solidificado para os fãs, o público em geral e até a própria crítica coreana com o lançamento do seu digital single MEiNE (2017), que significa "meu" em alemão. Livre da sua antiga agência e do mercado mainstream da Coreia do Sul, Yeeun materializou seu próprio universo e anseio artístico em duas delicadas faixas, I Wander e Read Me, canções sem pretensões comerciais, ainda que use de alguns elementos do cenário, mas tudo de uma forma criativa e sem soar genérica. I Wander vai lentamente abrindo espaço para os riffs de guitarra, estalos de dedos e pequenas batidas, quase soando como um versão acústica. Porém, o brilho deste registro fica para a segunda faixa, Read Me, onde o teclado, os estalos e as batidas envolvem-se em uma forma harmônica para acompanhar o vocal manso de Yenny, incrementado por uma leve dramaticidade com o arranjo de cordas. 

Em MEiNE, a sul-coreana não repete os exageros dos hits de seu ex-grupo. Há uma preocupação na delicadeza dos arranjos, principalmente porque as canções retratam o momento de rompimento da cantora com seu antigo trabalho, as Wonder Girls, para trilhar novos caminhos. As inseguranças e os medos de Yeeun devido ao fim do grupo são estampados nas letras, que vêm acompanhadas de roupagens que dão formas aos sentimentos carregados por ela, ao mesmo tempo que a encorajam para enfrentar as futuras dificuldades como uma artista solo. 

As mesmas preocupações com os arranjos estão presentes em Deine (2018), segundo digital single do projeto HAT:FELT. Cada elemento vem em doses medidas, evitando excessos que podem desarmonizá-los. Os sintetizadores atmosféricos, as batidas robóticas e as batidas de dubstep, os acanhados riffs de guitarra e os sussurros que preenchem as duas canções transitam em uma zona branda e também delicada. 

Pluhmm, primeira canção do novo trabalho e também o single de divulgação, apresenta sem rodeios um arranjo que se alimentam de recursos do cenário comercial, mas modelados em uma forma criativa e não genérica. Enquanto em MEiNE a cantora estava fechada em seu íntimo, nessa canção ela se mostra livre dos medos de outrora e curiosa para tomar conhecimento do que o seu público quer. Cigar, segunda faixa, abre com sintetizadores que criam uma atmosfera intangível, que soa quase rarefeita, mas logo divide espaço para as batidas palpáveis do dubstep. É um universo de ecos sintéticos no qual os vocais de Yenny conduzem o ouvinte.

O que torna esse registro diferente do anterior são as composições e as fontes nas quais a coreana recorre para construir seu trabalho. Pluhmm vem com algumas doses da sonoridade volúvel e sutil da bossa-nova, faz referência ao filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004), enquanto a letra mostra o lado lascivo e sensual de Yenny. Não é por acaso que a palavra  Deine, "seu" em alemão, foi escolhida como título deste trabalho. Após enfrentar os medos e as inseguranças, HA:TFELT quer entregar-se ao público e criar canções que atendam aos anseios dos seus fãs, mas, claro, sem deixar sua criatividade e autonomia artística de lado.







Degustando Sonoridades: Summer Lover - YMA & GAB


Em Summer Lover, YMA & GAB, duas brasileiras que possuem carreiras paralelas, mas fazem uma parceria aqui, resolvem sussurrar versos sobre amores efêmeros, que compartilham por alguns momentos as trocas de carinho, mas que logo são deixados no passado, tornando-se apenas meras recordações.

Guitarras ensolaradas, vocais que imergem o ouvinte num universo onírico praiano, sintetizadores e um lascivo saxofone tecem a base instrumental da faixa, soando levemente empoeirada. Summer Lover transita entre as confissões amorosas que parecem, a cada segundo da canção, tomarem forma, ao mesmo que tempo que, nos minutos finais, tudo se dissolve, retornando ao universo das lembranças dos momentos íntimos de outrora. 

 

Degustando Sonoridades: Breathe In, Breathe Out - Melody's Echo Chamber


Após ter anunciado o seu segundo álbum de inéditas no ano passado, e ter interrompido o processo de criação do registro por conta de um acidente grave que sofreu, Melody Prochet, nome por trás do projeto Melody's Echo Chambers, retorna as atividades e lança mais um single para promover Bon Voyage (2008), disco que contará com sete faixas. 

Breathe In, Breathe Out traz os mesmos vocais letárgicos de Melody, adornados de efeitos que transmitem uma sensação anuviada. O diferencial em relação ao trabalho antecessor, Melody's Echo Chamber (2012), fica para as guitarras mais energéticas e as quebras rítmicas que permitem a musicista brincar com diversos elementos, criando uma pintura com um número generoso de linhas, formas e cores em pouco menos de três minutos de canção.

 

Resenha: Agenda - Kate Nash



O ano de 2017 está repleto de lançamentos e previsões de lançamentos no cenário pop musical. Já tivemos Nelly Furtado com "The Ride"; Lana Del Rey com "Love" e "Lust For Life", singles de divulgação do novo álbum da cantora; Katy Perry com seu pop político em "Chained To The Rhythm", carro chefe do seu novo trabalho; Lorde repaginando-se sonoramente com "Green Light"; Paramore com o tropical "Hard Times" e muitos outros. Boa parte dos artistas citados são nomes que sempre marcam presença nos charts, porém as novidades da música pop não se resumem apenas ao cenário mainstream. O pop independente também vem trazendo bons lançamentos e Kate Nash, um dos grandes nomes do indie-pop, é um exemplo disso.

"Agenda - EP" é o quinto registro de inéditas da cantora britânica e seu segundo EP. Lançado na metade do mês de Abril, o novo trabalho de Kate Nash traz quatro canções que reafirmam o seu amadurecimento, algo já nítido em "Death Proof - EP" (2012), primeiro EP da cantora, e que se cristalizou com "Girl Tak" (2013), seu terceiro álbum de estúdio. Porém no novo trabalho, a britânica abandona a imagem e a sonoridade rebelde, de guitarras desenfreadas e influências do movimento Riot Grrrl, e se volta novamente a um som mais pop, embora não repita o que já foi apresentado em seus dois primeiros álbuns, "Made Of Bricks (2007)" e "My Best Friend Is You (2010)". 

Nesse registro, Kate mostra-se mais solta, dando-se a oportunidade de experimentar e testar novas fórmulas, ainda que mantenha o humor seco, tão presente na discografia dela. Longe de ostentar a imagem de garota fofa com boca suja de outrora, a britânica parece mais confiante em flertar com outros sons, gêneros e ritmos, sem precisar manter uma personagem. É o fruto do amadurecimento das duas produções anteriores que, nesse momento, possibilitou que ela se explorasse musicalmente, provando para si mesmo (E para quem duvidava) o seu grande talento como musicista e compositora. 

"Call Me", "Agenda", "One Eye" e o single "My Little Alien", embora componham um pequeno catálogo, são suficientes para exprimir a facilidade com a qual Kate Nash transita por gêneros e épocas distintas sem deixar de soar original e criativa. São quatro composições que não repetem o pop de crônicas humorísticas a respeito de amores não correspondidos ou de desabafos sobre relacionamentos problemáticos. Em "Agenda - EP", Kate fala sobre os momentos de descrença em si mesma, da falta de autoestima e da construção social do padrão de beleza.

"Call Me", faixa que abre o EP, leva o ouvinte a mergulhar de vez em um clima de verão. Marcada por um baixo desenvolto, violão, riffs de guitarra e um teclado que se destaca, a canção transmite uma atmosfera praiana, ainda que sua letra não corresponda a melodia tão alto astral. Em "Agenda", faixa-título, Nash chama atenção para seu recado de empoderamento através de rimas, dando vida a uma canção que brinca com o rap/hip-hop, repleta de efeitos eletrônicos imitando elementos do rap, como o scratch, por exemplo, batidas sampleadas e uma confusão de sons esquisitos. Faixa, essa, que chama a atenção pela forma criativa de se fazer uma crítica aos padrões de beleza impostos pela mídia ao mesmo tempo que a cantora personaliza um gênero para uma sonoridade já estabelecida em sua discografia, sem causar estranhamento para aqueles que acompanham o seu trabalho. 

Quanto as duas outras faixas, Kate Nash dá a elas o tratamento tão recorrente em seus registros: o flerte com o retrô. Todavia, nada do Soul ou do Doo Wop que já foram influências para cantora. Aqui, a britânica resgata a sonoridade do rock and roll da década  de 60. "One Eye" é uma pequena narrativa na qual a cantora relata uma vingança, após sofrer uma traição. No início, a canção soa como uma trilha sonora de filmes do velho oeste, mas é no refrão que nos deparamos com a pegada do rock seiscentista, o que lembra as produções de grupos femininos da época, como The Chordettes . Já "My Little Alien" não fica para trás. A última faixa do EP e first single é uma baladinha que mantém o flerte com o rock retrô, porém cheia de ruídos e efeitos eletrônicos, que contribuem para dar toda uma atmosfera ufológica à canção. 

Ainda que Kate não tenha lançado o seu quarto álbum, "Agenda - EP" é um registro suficiente para acalmar as expectativas de quem estava aguardando por algo novo da cantora. Composto por quatro boas canções, que deixam os indícios do direcionamento que ela dará a seu futuro trabalho, o EP contribui para reafirmar a qualidade do pop produzindo por artistas independentes e da estabilidade da cantora em entregar bons trabalhos ao longo dos 10 anos de carreira, mesmo passando por algumas dificuldades. Dessa vez, Kate Nash conta com a ajuda dos fãs para produzir o próximo álbum de inéditas. Caso queira contribuir, é só acessar o perfil dela no Kickstarter e dá uma conferida no que ela tem a dizer sobre seu novo projeto.  



 
Nota: 7.5
Gravadora: ?
Faixas: 4
Ouça: Spotify

Receita: 7 músicas para se apaixonar pela série Girls


Girls é uma série de comédia dramática produzida pela HBO, idealizada e dirigida por Lena Dunham, a qual interpreta Hanna Horvath, personagem principal do elenco. O seriado conta a história de quatro garotas, entre os 20 poucos anos, que precisam lidar com a independência, as inseguranças, os relacionamentos, os problemas com auto estima e, principalmente, os obstáculos que as impedem de realizar seus sonhos.

Hanna Horvath (Lena Dunham) é o ponto central da narrativa. É uma recém formada em jornalismo que aspira torna-se uma grande escritora e que lida com alguns problemas pessoais, como o desconforto com o próprio corpo. Ao longo dos capítulos, mergulhamos nos dramas quase infantis de Hanna, nas decepções com empregos que não lhe agradam e em suas frustrações ao encarar a vida adulta, longe da proteção dos pais. 

As outra garotas passam por problemas semelhantes, embora cada uma tenha certas particularidades. Marnie Michaels (Allison Williams) é a melhor amiga de Hanna e sonha em trabalhar com questões ambientas, embora seja um recepcionista de galeria e que, ao decorrer dos capítulos, também enfrenta problemas com empregos e com um relacionamento desinteressante. Já Jessa Johansson (Jemima Kirke) é uma garota britânica, irresponsável e que foge das dificuldades da vida adulta, porém, na segunda temporada, conhecemos melhor as fragilidades da personagem, os problemas com o pai e a tentativa de enquadrar-se na realidade do mundo adulto que tanto evitava. Por fim, temos a engraçada Shoshanna Shapiro (Zosia Mamet), prima de Jessa. Soshanna é mostrada como uma garota boba, ingênua, virgem e preocupada com os estudos, mas logo tudo isso muda e Soshanna imerge em um universo contrário ao qual estava acostumada. 

Girls foi bem recebida pela crítica, tendo a primeira temporada com a nota 81 no Metacritic. Além disso, no início, a série foi comparada com a famosa Sex and the City, mas, graças à Lena Dunham e aos roteiristas da série, Girls mostrou-se ser um seriado mais complexo, tangível e que dialogava de forma mais verossímil com o seu público, além de retratar alguns tabus da sociedade atual em sua narrativa. 

Contudo, uma das características mais interessantes e que enriquecem o seriado é a trilha sonora. Enquanto nos deparamos com os conflitos de Hanna e suas amigas, somos agraciados por músicas que deixam cada cena mais engraçada, dramática ou que intensificam os momentos melancólicos e tristes da série. Passeando pelo synthpop de Robyn, o indie-rock de Oasis e até o pop de Lily Allen, Girls é um acervo de boas músicas, sendo uma forma interessante de se conhecer novos sons e artistas. Sendo assim, o Música na Mesa traz uma listinha com 7 músicas para você se apaixonar pela série. 

1.  The Knife - Hearbeats 


The Knife é um duo de synthpop sueco formado por dois irmãos, Karin Dreijer Andersson e Olof Dreijer. "Hearbeats", primeira faixa do álbum "Deep Cuts" (2003) do duo, aparece na série no episódio cinco da primeira temporada, tocando numa balada, um flashback que a personagem Marnie tem do momento em que conheceu Charlie, seu atual namorado, o qual, juntos, vivem numa relação não muito interessante. A canção traz sintetizadores que tomam boa parte dos quase quatro minutos de audição e vocais sufocados pelos efeitos sintéticos. É uma ótima canção para quem curte música eletrônica. 

2. Oh Land - White Nights


Oh Land é o nome dado ao projeto da cantora e compositora Nanna Øland Fabricius. Nanna é uma cantora de indie-pop dinamarquesa e que teve o primeiro álbum de seu projeto lançado em 2008. Na série, a canção "White Nigths" toca em um dos momentos mais engraçados da primeira temporada. No sétimo episódio, Marnie, que não gosta nenhum pouco de Adam (Adam Driver), affair de Hanna, e após Hanna e Adam discutirem a própria relação, aparece de taxi para levar a amiga de volta para casa e livrá-la de Adam. Porém Hanna, com todo seu jeito mimado, acaba obrigando todos a voltarem juntos no taxi, imprensados no banco de trás junto com a bicicleta de Adam. "White Nights" é uma gostosinha canção pop, que brinca com sintetizadores, teclado e transições eletrônicas que ficam de fundo na música. Nanna adiciona ainda todo um toque de doçura na música com sua voz suave. 

3. Father John Misty - Nancy From Now On


Father John Misty é o nome do projeto de indie-folk do cantor e compositor Josh Tillman, que recentemente trabalhou com nomes como Beyoncé e Lady Gaga. "Nancy From Now On" surge como trilha sonora em um dos episódios mais sensíveis e reflexivos para Hanna. No quinto episódio da segunda temporada, Hanna vive uma rápida relação com Joshua, um médico bem sucedido e recém separado da esposa. O médico vive numa casa dos sonhos, cheia de cômodos, sala de jogos, um banheiro com sauna e tantas outras coisas longe da realidade vivida por Hanna. É nesse episódio que a personagem principal, ao viver aquela efêmera relação, percebe que tudo o que ela deseja para vida era ser tão bem sucedida quanto Joshua, mas que inconscientemente se atarefava com outras coisas, pois sabia que nunca conseguira ter a boa vida que o médico levava. "Nancy From Now On" é composta por uma atmosfera melancólica, uma letra com teor quase masoquista, típico do universo construido por Josh Tillman. 

4. Nancy Sintra - Sugar Town

 
Nancy Sintra foi uma famosa atriz e cantora dos anos de 1960, filha do lendário cantor Frank Sinatra. Nancy é dona do famoso hit "These Boots Are Made for Walkin'", regravado até hoje por várias estrelas da música country, como Jessica Simpson, por exemplo. A faixa aparece no finalzinho do quarto episódio da terceira temporada da série. É um momento bem engraçado, pois Hanna conta uma história triste de outra pessoa como sendo sua para Adam, a fim de inventar uma desculpa por algo que ela tinha feito. "Sugar Town" exprime toda a sensualidade de Nancy Sintra, uma das sex symbols da sua época. Um canção pop de melodia fácil, curta e de letra bobinha, mas gostosa de se cantarolar. 
5. Lily Allen - L8 CMMR

 

Embora o último álbum de Lily Allen tenha sido bem fraco, é impossível não colocar sua canção "L8 CMMR" na lista. Não porque a canção é trilha de um momento marcante da série, mas pelo fato de ela ter sido exclusivamente lançada no episódio oito da terceira temporada de Girls. A faixa foi produzida e escrita por Lily em parceira com Greg Kurstin. Greg apresentou algumas canções para um amigo que trabalhava na série e, esse, pediu para incluir "L8 CMMR" na soundtrack do seriado. Além disso, Girls já foi plataforma para lançamento de faixas inéditas de outros artistas, como Beck, Miguel e Jenny Lewis. "L8 CMMR" é canção de batidas robôticas, vocais autotunados e efeitinhos sintéticos, soa como uma daquelas musiquinhas que saem de brinquedos eletrônicos para crianças. 

6. Fiona Apple - Valentine

 

Fiona Apple é uma cantora norte-americana de música alternativa, é compositora e pianista. Lançou seu primeiro álbum com menos de vinte anos e foi bem aclamada pela crítica por suas composições que retratam questões psicológicas. "Valentine", faixa presente no melancólico "The Idler Wheel..." (2012), um dos melhores álbuns de 2012, preenche uma cena bem triste para Hanna, no nono episódio da segunda temporada, na qual vê seu ex-namorado dançando com a nova namorada dele. A canção traz uma forte carga melancólica, é minimalista, tendo apenas o piano compondo o arranjo e guiando o ouvinte pela composição a qual Fiona desabafa todo seu esforço para o amado que não dá a mínima para ela.  Aliás, para quem está com o coração partido, "The Idler Wheel..." é uma trilha sonora perfeita para esse momento. 

7. Kings Of Convenience - I'd Rather Dance With You 

  

Kings Of Convenience é um duo de folk-pop/indie-pop da Noruega. O grupo se destaca por suas melodias delicadas, vocais mansos e seu pop ingênuo e extremamente envolvente. A canção toca num momento um tanto quanto trivial na série, nada que mereça ser mencionado. "I'd Rather Dance With You" é melhor exemplo da proposta do duo. Um canção de arranjo singelo, mas que encanta logo na primeira audição. Tudo é minimamente dosado, o que compõe uma melodia contida, mas sem deixar de ser dançante.

Redescobrindo Temperos: Fortres 'round My Heart - Ida Maria


Há algum tempo, venho querendo escrever sobre o álbum debut da Ida Maria, mas, infelizmente, vivo numa preguiça crônica que me impede até mesmo de assistir uma série na "Netflix". Porém, algo inesperado inspirou-me a escrever sobre ele nessa coluna do blog intitulada "Redescobrindo Temperos". 

Ontem (15/03/2017), no finalzinho da tarde, recebo uma mensagem da Ida no meu twitter que dizia o seguinte: Oh sweetheart I know what you are going through. It's always darkest before dawn. Hang in there. Lots of love to you (Oh querido eu sei o que você está sentindo agora. O céu é sempre mais escuro antes do amanhecer. Aguente firme. Muito amor pra você). Eu havia, semanas atrás, enviado uma mensagem a ela contando o quanto ela me inspirava a superar meus problemas psicológicos, pois, para quem não sabe, Ida passou por um amargo momento de depressão após o seu segundo álbum, intitulado "Katla" (2010). Sendo assim, eu escrevo essa coluna com todo o meu amor para Ida Maria, falando sobre um de seus álbuns que mais me marcaram e, com certeza, se encaixa perfeitamente no que ela passou e no que eu estou passando. 

Ida Maria é uma cantora de indie-rock norueguesa, ganhando destaque em seu país em 2007, após vencer dois concursos que davam visibilidade à artistas desconhecidos. Em seguida, participou de uma série de festivais, premiações e entrevistas em revistas e jornais renomados, como o "The Times". Porém, seu nome tornou-se mundialmente conhecido graças ao catálogo de canções que compõem "Fortres 'round My Heart", seu álbum debut.

O disco de estreia de Ida foi lançado em 2008, mas antes mesmo de chegar as lojas, a cantora lançou seis singles: "Oh My God", "Drive Away My Heart", "Stella", "Queen of The World" e "I Like You So Much Better When You're Naked". No Estados Unidos, o álbum tivera uma boa repercussão no cenário Alternativo graças ao acordo assinado pela gravadora norueguesa Waterfall com a SonyBMG, responsável pela divulgação e distribuição do primeiro registro de Ida nas terras norte-americanas. Assim, o trabalho de estreia da norueguesa teve três edições. A primeira sendo a versão original, lançada na Noruega, uma versão Deluxo lançada em 2009, contendo novas canções, e uma versão exclusiva para os Estados Unidos, lançada pela Mercury Records.

No charts, Ida teve seu maior peak na Noruega, alcançado a posição #5 e permanecendo por mais de sete semanas no top 20. No Reino Unido, um dos principais mercados fonográficos do mundo, ela teve um desempenho bom para um artista fora do mercado meanstream, tendo seu maior peak na posição #39. Na Irlanda estreou em #38. Além disso, seu álbum foi classificado como o quadragésimo oitavo melhor álbum do ano de 2008 pela revista NME. 


Saindo desse pequeno sumário narrativo a respeito das questões mercadológicas e da repercussão do primeiro álbum da Ida, vamos prosseguir para uma breve análise musical das dez canções do registro debut da norueguesa. 

Há quem diga que "Fortres 'round My Heart" é uma versão feminina e mais pop do clássico "Is This It", álbum de estreia da banda norte-americana The Strokes. É inegável a semelhança das sonoridades entre ambos os álbuns, afinal, os The Strokes foram o precursores do gênero indie, mesmo gênero seguido por Ida. "Queen of The World", sétima faixa do disco da cantora, e "Soma", terceira faixa do primeiro álbum da banda, tem introduções quase que parecidas, mas seguem um ritmo diferente no decorrer dos segundos que as compõem. Ainda sim, o registro debut da norueguesa está longe de ser um plágio do que foi testado, em 2001, pelos The Strokes. Enquanto a banda parecia mais querer se jogar na cidade e ir em busca de diversão, Ida estava em busca de proteção, de algo que a impedisse de ser atingida pelas aflições e angustias que a atormentavam.
 
As dez canções presentes no álbum narram uma Ida Maria frágil, seja por ser desprezada amorosamente em "Forgive Me", pela apatia pela vida em "Drive Away My Heart" ou nos questionamentos a respeito do significado do amor em "Stella". Em todas essas canções há aflição, um espírito em constante estado de dúvida e que nunca encontra sossego. Os riffs de guitarra acelerados, a bateria contagiante em "Louie" e as melodias facilmente cantaroláveis podem nos enganar nas primeiras audições, mas as letras escancaram esses sentimentos tão conflitantes de Ida. "Oh My God", primeira faixa do álbum, já imerge o ouvinte na busca desesperada da cantora para a solução de seus problemas. Versos curtos e repetitivos, um refrão frenético e um arranjo simples conseguem descrever com êxito o estado de exaltação e de constante incômodo o qual a interprete se encontra.

Em determinados momentos, o álbum consegue transmitir um certo tom de humor e até alegria, graças aos arranjos tão voltados a pegada indie-rock/pop já testada pelo The Strokes, Fraz Ferdinand e entre outros. Porém, há canções as quais é audível a amargura e a sensação de fraqueza, "Keep Me Warm" é um dos exemplos mais concretos disso. A canção soa como um balsamo aos espíritos solitários e que esperam pela noite para mergulhar em suas tristezas. Além disso, narra o quanto os famosos "joguinhos amorosos" nos fazem tornar seres melancólicos e o quanto eles nos desgastam sentimentalmente.

Não posso deixar de mencionar um das minhas canções favoritas, "Drive Away My Heart", dona de um dos clips mais divertidos da cantora. Embora na mesma pegada alegrinha do indie-rock da década passada, há uma leve melancolia nos vocais da interprete, na letra e no arranjo também. O segundo single do álbum é sobre a entrega total àquele quem se ama, mas uma entrega exaustante, uma submissão excessiva ao amor que nos faz esquecer de nós mesmos. Oh, drive away my heart tonight/ Cause it is no loner mine (Oh, leve meu coração pra longe essa noite/ Porque já não me pertence), entoa Ida Maria no refrão. 

A última faixa que encerra o álbum é diferente dependendo da versão. No álbum lançado nos EUA e na versão deluxo é "In The End" a responsável pelos minutos finais. Já na versão original, lançada na Noruega, a delicada "See Me Through" exerce a função. Em "In The End", com um arranjo singelo, contando com a ajuda de backvocals para adocicar a canção, Ida canta sobre a esperança de um final feliz e de uma vida longa. Todavia, "See Me Trough" é a minha preferida entra as duas. A delicadeza dos vocais, o arranjo preenchido pelo violão e pelo piano e, principalmente, por expor a fragilidade de forma tão sensível conquistaram o meu coração. "See Me Trough" encerra certeiramente tudo o que já foi apresentado pelo álbum. É o momento em que, depois de tanta aflição e dor, começamos a nos questionar sobre a existência de um ser superior e, com isso, na indagação do porquê de tanto sofrimento e do real motivo da vida. É um momento quase que ritual para muitas pessoas que, após viverem tantas decepções e tristezas, procuram um conforto em algum entidade divina. 

"Fortres 'round My Heart", como o próprio título sugere, é o percurso de Ida Maria na construção de pilares que a sustentem, de um muro que a proteja ou de um amor que a reconforte. Mesmo que algumas canções soem energéticas, cheias de refrãos pegajosos e arranjos com uma leve pegada pop, não é sobre alegria e diversão que os versos delas falam. O álbum teve boas críticas na época de seu lançamento, recebendo do Metacritic a nota 74, porém, escute-o sem se preocupar com o que os críticos acharam. Aqui, Ida Maria transforma os riffs de guitarra em amplificadores para que suas dores consigam ser ouvidas e são essas dores que tornam o seu primeiro trabalho tão marcante para mim. 



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